Sinto saudade.
Do sofá verde com listras brancas
Que também era cama
E virava cavalo na sala de TV.
Sinto saudade
Da banana amassada com mel
Minha mãe lotava o prato
E eu dividia com meu irmão.
Sinto saudade.
Do micro do Tio Paulinho buzinando
Eu sempre estava uns 5 minutos atrasada
Descia a escada voando.
Sinto saudade.
Do kibe do árabe em VR
Meu pai trazia quando voltava da faculdade
Comíamos conversando.
Sinto saudade.
Da minha mãe dividindo meu cabelo.
Enchia-o de creme
solesteirol.
Era um carinho desembaraçando.
Sinto saudade.
Do ovo mexido da Lola
Era com gema meio mole
Pensava e a boca enchia de água.
Sinto saudade.
Do jeito que a Lindalva tirava a espinha do peixe frito
Parecia farofa de tão esfareladinho
Comia sem medo.
Sinto saudade.
De esperar o micro na portaria do prédio
Tia Célia chegava pro almoço sorrindo
Queria ser igual a ela quando crescesse.
Sinto saudade.
De brincar com meus primos
De lojinha, escolinha ou trilhinha
Esperava sempre os Domingos.
Sinto saudade.
Dos almoços na casa das minhas avós
Macarrão clorado na Terezinha e frango caipira na Belinha
Brigava pelo “sangue” com Tio Tatá.
Sinto saudade.
Das férias em Cabo Frio.
Eu e meu irmão cantando no carro para a Ponte Rio- Niterói
chegar
Era muita alegria em 15 dias.
Sinto saudade.
Dos cafés no fds lá em casa
Meu padrinho sempre adivinhava a hora sem ser avisado
A gente sobre tudo conversava.
Sinto saudade.
De brigar com meu irmão
Aquela disputa boba pelo controle da TV e por atenção
Desde sempre a gente se ama.
Sinto saudade.
Do meu avô de olhos azuis
O jeito que ele cruzava as pernas calçando havaianas remendadas
O café e doce de leites mais doces que conheci.
Sinto saudade.
Dos churrascos no sítio do vô Gothardo
De pescar girino e catar amora no pé
Balançava na rede até dormir.
Sinto saudade.
Das disputas pelo melhor lugar no sofá da aula de Inglês
De explicar que era o “Person to Person”
Era tanto “listening” e “repeat” britânicos que ecoam até
hoje.
Sinto saudade.
Dos amigos da escola
Dos papos e brincadeiras na hora do recreio
Era tanto assunto que até hoje continuamos de recreio.
Sinto saudade.
Das visitas à casa da Tia Vitória
Eram idas ao grêmio e à feirinha do Paraguai
Adorava o rabo de cavalo de lado que ela fazia no meu
cabelo.
Sinto saudade.
De soltar pipa com meu pai e irmão
Fazíamos as pipas juntos
Esperávamos dias de vento e céu limpo.
Sinto saudade.
Da casa do pônei
Deixava tudo limpinho e arrumadinho
Até hoje, o meu presente mais querido.
Sinto saudade.
Da infância boa e calma que tive
Eram guerras de mamonas, pique bandeiras, amarelinhas mil
Eu era feliz, talvez não soubesse o tanto!
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