quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A única certeza da vida!

Eu queria tê-lo conhecido.
Definitivamente.
A cada página que eu virava, tinha mais certeza.
Queria que ele tivesse se consultado comigo ao menos uma vez.
Ousadia? Orgulho? Arrogância?
Não.
Por aprendizado, prazer, admiração.

José Alencar Gomes da Silva.
Não lembra?
Faz quase um ano que descansou.
Depois de várias batalhas, deixou que um dos cânceres mais ferozes do mundo ganhasse a guerra.
Perder? 
Não o conheci, mas derrota não é uma palavra que combinaria com ele.

Agradeço a José Roberto Burnier por ter ido além do seu trabalho e ter contado esta história real e linda.
Agradeço ao amigo que me emprestou o livro em que esta história foi contada.
Quando ele comprou "Os últimos passos de um vencedor", pude vê-lo com o livro nas mãos muitas vezes.
Lia com atenção e parecia ser muito bom.
Como conhecia "de leve" a história do Zé Alencar e meu avô estava prestes a vencer mais uma (espero que última!) batalha contra um câncer de intestino, interessei-me pelo livro.
Isto faz uns 5 meses, eu acho.
Mas ele tinha outros rumos para o livro.
Desencanei, outros livros vieram e outras histórias me distraíram e algumas me ensinaram.

Há menos de 1 semana, o mesmo amigo veio com o livro.
Fiquei surpresa por ele ainda lembrar daquele desejo um tanto distante.
E hoje, terminada a leitura, fico extremamente agradecida.
Obrigada, minha "biblioteca móvel" (muito móvel, aliás!)!

A cada página um sorriso, ao menos, era despertado.
Uma frase a refletir.
Uma atitude a repensar e repensar e decidir como agir.
Olhos mareados.
Um misto de admiração, encantamento...
Pensava...
Se existissem mais pessoas assim...

Sou médica.
Ok.
Odeio câncer.
Quem me conhece atuando, sabe bem disso.
Sou uma das pessoas mais positivas com os problemas alheios.
Principalmente com as doenças que acometem as pessoas que me procuram.
Muito difícil eu jogar a toalha.
Dói em mim jogar a toalha.
Tenho dificuldade de lidar com a "derrota".
Na verdade, acho que quase todos médicos têm.
Uns lidam melhor que o outros apenas...

Exemplos:
Há quase um mês pedi demissão dos meus plantões na Unidade Intensiva do Hospital de Emergências em que dei meus primeiros passos.
Por que?
Porque já tinha me cansado de buscar pontos positivos em meio a tantos pontos negativos.
As famílias quando vinham falar comigo para saber dos pacientes, vinham com os olhos esperançosos e repletos de medo.
Uma mistura só.
Imaginem eu, ser falante total, Poliana moderna, em tardes de Domingo, tirando a esperança de um filho? De uma mãe? De um marido?
Isso para mim não dava.
Sempre começava a falar da gravidade, do que me preocupava.
E sempre terminava com os pontos positivos, o que ainda era possível fazer, as alternativas.
Despedir-me com sensações boas quase sempre!
Mas havia vezes que não dava.
O ponto positivo era a morte.
Calma, não estou maluca...
É que era tanto ponto negativo, tanta gravidade, tanta dor e angústia que a "única certeza da vida" era o caminho natural: a morte.
E posso confessar?
Se para todo mundo aceitar a morte é difícil, imagina para um médico que foi durante anos "adestrado" para curar, salvar vidas??

Então...
Não teve jeito.
O câncer me infernizou muito, viu?
Perdi pacientes incríveis para ele.
Bebês, crianças, adolescentes, jovens, velhinhos...
O embate era duro, mas sempre aprendia com ele.
Principalmente com as pessoas que o enfrentavam na primeira fila.
Mas o embate eu levava bem. 
O problema era quando eu via que tinha perdido a luta.
Falar com a família, com o paciente, com Deus, comigo.
Eu não conseguia aceitar que eu não podia fazer nada.
Como????
Daí via a enfermagem e falava: "Dra, o paciente X, está muito cansado, comendo o ar e com muita dor..."
Juro que a minha vontade era dar ar para ele através de um tubo, dar sedativos e ver se ele melhorava com um novo tratamento e tal.
Fiz isso muitas vezes.
Não me arrependo.
Serviu para que eu entendesse que não era assim que eu ajudava.
Eu negava. Dava falsas esperanças e submetia o paciente a um sofrimento desnecessário.
Aprendi que saber lidar com a morte é uma arte.
Aceitá-la é a maior obra de todas.
É dar a segurança ao paciente e familiares que fizemos tudo, que os ganhos mesmo que pequenos existiram e que sim, a morte era a evolução "natural".

Lendo a história de José Alencar, me vi no lugar de seus médicos e familiares.
Lembrei das frustrações, alegrias por cada pequena vitória, as inúmeras tentativas, as rezas, as noites estudando, as conversas dolorosas sobre o assunto...
Lembrei a coragem de alguns pacientes, da resignação, da aceitação.
Tive pacientes que me lembro até hoje.
Mas acho que não tive nenhum como Alencar.
Ele se comportou diante do Câncer Monstruoso que teve da mesma forma que enfrentou a vida.
De frente. Saindo de sua zona de conforto. Indo além. Pensando em soluções para o problema e não no problema. Com muita vontade de vencer.

Vocês podem achar que ele perdeu.
Afinal, ele morreu.
Mas ele venceu todos os prognósticos, todas as "não saídas", todos os receios dos médicos, da família e seus próprios receios.
Ele foi além do que esperavam dele.
Ele foi até onde ele esperava.

História bonita de mais um "herói" da vida real.
Recomendo a leitura.
Estou emocionada até agora com o que li.

As lições que tiro:
Não se acomode com as limitações- você pode ir além do que dizem, sempre que QUISER.
Não foque nos problemas, direcione-se para as soluções.
Estude o passo que irá dar, mas sempre vá adiante.
Relacione-se com pessoas melhores que você ( o pai dele disse isto a ele e eu concordo).
Seja humilde.
Não tenha medo da morte e acredite em Deus.

Enfim...
A morte é a única certeza da vida.
Por isso viva até o taloooooooooooooo!



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