Eu precisava escrever. Porque toda esta saudade que estou
sentindo está gritando dentro de mim. Sabe quando meus olhos ficam assim meio
que com lágrimas e as pupilas dançam de um lado para o outro fugindo de
qualquer olhar como se só fossem se encontrar no seu? Então, estou deste jeito.
Pequena, ridícula, insignificante diante deste troço enorme dentro de mim. Um
troço que o tempo amenizou um bocado, mas vez ou outra, um outro tempo me
visita e faz tudo ficar recente, friável, sensivelmente grande.
Eu poderia te ligar. Pensei nisto até. Mas você poderia não
atender como já fez outras vezes. Eu te odiaria. E por saber te odiar,
concluiria o quanto do amor que sinto por você e que ainda existe. Eu me
odiaria mais.
Tenho passado bem. Muito bem até. Evitado sentir qualquer
coisa parecida com o troço louco que sinto por você. O amor maior que já senti.
Aquele amor que abraça por inteiro, nina no colo, queima de paixão, incentiva,
encoraja, mesmo que a coragem que eu lhe dê seja para ir para mais longe de
mim. Longe dos meses mais incríveis e reais da minha vida.
Não lembro quando foi a última vez que me senti assim depois
que você foi embora. Eu não gosto de me sentir assim. Não sei se foi culpa da
coluna da Martha Medeiros ontem que li na Revista do Globo, ou da enésima
reprise de Forrest Gump na TV, ou minha visita a Manaus, ou a música que ouvi
sem querer da Ana Cañas no YouTube. De repente tudo aquilo voltou, sabe?
Senti-me mais mexida e batida que a massa do bolo de coco que fiz ontem à
noite.
Não sei se é saudade de você. Se é saudade de mim. Se é
saudade do que senti e vivi e não sei se conseguirei sentir de novo e viver de
novo. Tenho tentando sentir de novo, acredita? Sim, tenho me esforçado. Mas
acho que fica tão artificial que eu me enjôo, o cara se enjoa e o troço não desenrola.
Sinto muito medo. Não consigo prosseguir. Quando acho que
estou pronta, vem você e me aparece de novo, sem querer, sem culpa. A culpa é
minha que insisto em sentir um sentimento que não tem sentido de existir. A
culpa é minha por permitir que você me visite em todo troço bom que vivemos
juntos e eu repito sozinha ou em novas companhias.
Pensei que seria menos difícil. Afinal, acabar tudo foi
muito difícil. Acabar sem brigas parece doer menos. Parece maduro, parece
sensato, parece “higiênico”. Aparece, não parece. Queria ter raiva de você.
Ficar brava, magoada. Mas o que existiu foi tão maior que isso, tão limpo, tão
bonito. Não consigo sentir diferente.
Pode não concordar. Outra pessoa pode até me achar maluca.
Sei que você não acha. Você me entende. Como pode duas pessoas tão diferentes
se entenderem tanto? Como podemos deixar um canal aberto, um canto sempre
pronto a receber um ao outro e não estarmos juntos? Como eu posso deixar de
lado um dos sentimentos mais lindos e deliciosos que já senti? Como podemos
deixar isto tudo nos fazer mal?
Não sei. Sei o que você sabe: precisamos passar por isso.
Energias maiores do que a nossa. Nós quisemos e escolhemos. Os dois. Sim, nós o
tempo todo.
Eu precisava escrever. Escrevi porque precisava externar sua
falta presente na minha vida.
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