quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre ser negra...

Hoje, motivada pelo post da Mari no Blog Sozinha ou Acompanhada ( que adoro e está na minha lista "De fora pra dentro"), falarei sobre um assunto polêmico. Escreveria sobre arrumar malas- detesto!- mas deixo isto para depois. Quem sabe amanhã cedo antes de viajar?
Escreverei o que a cor da minha pele me ensinou e o que significa na minha vida.
Bem, vivemos em sociedade. Viver em sociedade significa conviver com as diferenças. Será que convivemos  bem com as diferenças? Será que as absorvemos e as entendemos ou será que fingimos "engolir"? Será que eu sou uma pessoa sem preconceitos?
Depois me respondam, ok?
Um pouco mais de mim. E isso é sério desta vez... Hahaha!
Meus pais vieram de famílias bem humildes. A realidade que eu vivi desde de pequena é bem diferente da que eles viveram.
Nasci em uma boa casa, em um bairro bom e seguro e nada do que realmente importa me faltou graças ao esforço sem medida de ambos.
Considero-me negra. Para mim não existe este negócio de morena jambo, morena escuro e outros do gênero. Não tem porque "amenizar" a minha cor. Ela não é um entrave, nem uma vergonha. Ela apenas sinaliza que possuo mais de um pigmento natural chamado melanina.
E por conta desta concentração diferente de melanina, as pessoas são divididas e classificadas. Como se uns fossem melhor ou mais do que os outros. Como o ser humano tem dificuldade de lidar com aquilo que lhe é diferente...
Outro adendo importante: como faço parte da classe média alta, minha cor muda! Não entenderam? Por eu ter algum dinheiro, não posso ser negra. Acreditam que já ouvi isso!! Seria no máximo morena e forçando uma barra, mulata! Juro!! Como se o fato de me chamar de negra fosse ofensa... Muito triste isso.
Estudei em instituições particulares. Desde a alfabetização, pude perceber que era diferente da maioria que me rodeava. Meu cabelo tinha volume, era cheio de molinhas e por ser diferente, vivia preso, meio que para não incomodar. Meus joelhos e cotovelos se não passasse creme ficavam bem russinhos. E minha mãe não cansava de me lembrar que não podia me machucar, porque se não, iria ficar toda manchada! Hahaha. Talvez por achar que ser "diferente" (só tinha eu e mais uns 10 colegas "moreninhos" no pátio inteiro na hora do recreio de todas as séries e turmas da manhã) era um defeito, resolvi me sobressair. Como? Sendo rebelde, a revolucionária, a coitadinha, a problemática? Nananinanão: estudando! Se "esteticamente" me sentia "inferior" ( na minha época não havia bonecas ou heroínas negras, como me acharia bonita?), tinha que ser muito boa em algo, certo? Despertar admiração dos demais e não ser objeto de "apelidos"... E foi isso que fiz: aluna padrão, garota nota 10.
Achava que não chamava a atenção dos meninos por ser negra. Já achei que não tinha amigos de verdade por ser negra, acreditam? Olha o quanto de preconceito eu guardava dentro de mim! E todas às vezes que estes pensamentos me rondavam e ficava triste e comentava em casa, meu pai me lembrava: "Filha, olhe quantas pessoas da sua cor frequentam os lugares que frequentamos?". "Muito poucos, pai. Às vezes, só eu...". "Está vendo o que você está conquistando? Valorize isto. Aproveite as chances.".
Talvez meu pai não saiba como foi importante para mim ele me fazer estas perguntas... Vou agradecê-lo por mais isso. Com estas perguntas, ele me ensinou a não ter vergonha do que sou, a me achar vencedora e não vítima da história.
Com o passar do tempo, amadureci e pude ver o quão bacana é ser diferente. Para os meus amigos, minha cor não importa, assim como as cores deles para mim.
Aprendi a gostar da minha cor, meu cabelo. Verdade que o uso escovado a maior parte do tempo. Mas o faço por ser mais prático e rápido. Adoro soltar meus cachinhos sempre que posso. Principalmente no verão quando a vontade de lavar a cabeça todo dia é forte! Hahaha.
O preconceito existe. Diminuiu sim. Mas ainda é grande.
Exemplos: "Negro tem que andar mais arrumado." "Negro quando tem "posição" tem que ser metido."
Meus exemplos... Quando não sabem o que eu sou no hospital e me vêem de jaleco, a última coisa que acham é que sou médica. E quando respondo que sim, sou médica, encontro olhares surpresos e constrangidos. Meus pais não gostam que eu ande de cabelo cacheado, principalmente molhado. Até se oferecem para pagar minhas escovas, acreditam? Sabe por que? Porque quando estou de cabelo "liso" sou morena e de cabelo "crespo" sou "mulatinha". Já ouvi falarem de mim assim só pela diferença do penteado... E preciso "brigar" com meus pais por isso. Gosto do meu cabelo do jeito que ele é. Sou eu. Entendo-os... Não querem que eu seja "discriminada", que sofra preconceitos... Amados pais, não adianta e, sinceramente, não me importo mais.
Se entro numa loja, é porque tenho o dinheiro de sobra para comprar o que eu quero. E se a vendedora achar que não, problema é dela. Ganhará uma excelente comissão da mesma forma, apesar de não merecer.
Tenho orgulho de quem eu sou e de como sou. Por dentro e por fora. Gosto de ser um exemplo positivo para crianças da minha raça e de outra raça também. Eu me gosto e muito. E não me acho melhor que uma mulher que esteja na mesma posição que eu e que seja branca. Ela também passou por suas dificuldades, limites, obstáculos... Apenas foram diferentes!
E como complicamos as diferenças meu Deus!
Hoje, acho engraçado quando me perguntam o que eu faço e quando respondo, me olham admirados. Alguns pacientes negros com muito orgulho, tipo, " nossa, que bacana! ela é negra e médica!". Sinto isso, vejo isso. Quase todo dia. E isto me deixa contente! Ficarei mais contente quando minha cor e a das demais pessoas não seja um desafio a ser "vencido", mas apenas uma maior concentração de melanina na pele.
Será que este sonho ainda se torna realidade? Acho que sim! Luto para que sim!
Obama é uma realidade para os sonhos de Martin Luther King e Mandela.
Ser "diferente" só me trouxe coisas boas: amadurecimento, dedicação, determinação e bronzeado fácil! Hahaha.
Mas acredito que seria do mesmo jeitinho e teria conquistado o que consegui se fosse branca, ruiva ou amarela.
Ser negra não me diminui ou me acrescenta. Ser negra me faz igual. O que faz ser diferente é o que trago dentro de mim e não o que está exposto por fora.
Beijocas com alto teor de melanina!
"BLACK OR WHITE":http://www.youtube.com/watch?v=zjZwi_PJiio

4 comentários:

  1. Nanda querida, simplesmente adoro sua ENERGIA... ainda mais assim cheia de melanina!!!hahahaha...
    Entendo, respeito e admiro muito sua vivência, seus pais que lutaram tanto e conseguiram e principalmente a força interior e inteligência que você tem.
    Eu concordo com vc em muitas coisas, como disse anteriormente em alguns posts também sou diferente e este fato, foi e até hoje às vezes ainda é, muito difícil pra mim. Tenho um tamanho maior que a maioria! hahahaha... e assim como você aprendi a me amar assim e curtir minhas diferenças. Mas o mundo e as pessoas podem ser cruéis, o que na verdade faz parte da aprendizagem!
    E sabe o preconceito é mesmo uma MERDA!!!! Mas a gente, que pensa, aprende muito e aos poucos acredito que vamos mudando as coisas, como vc está, e tem a admiração de outras pessoas negras que por várias e inumeras razões naõ venceram, assim como eu tenho certeza que inspiro algumas mulheres gordinhas, pelo look e pelo astral!
    beijocas querida e continue sempre assim.... mas aprendendo sempre mais e tenha um excelente feriado e viagem!
    Mari.

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  2. Mari, adorei seu comentário! E obrigada pela "inteligÊncia e força interior"... Eu me esforço... Hahaha!
    E já percebi pelos seus posts que vc lida bem com sua diferença! E óbvio que temos umas recaídas de vez em qdo... Preconceito machuca, aborrece e existe... Mas superamos e vencemos!
    A viagem foi ótima! Muitas fotos bacanas e histórias pra contar! Prepare-se!
    Beijocas e ótima semana!

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  3. Parabéns pelo post, amoreco. Como vc sabe, meu pai também é da raça negra e tb passou por muitas dificuldades profissionais e pessoais por conta de preconceito. Quando se casou com minha mãe, loira, ambos sofreram ainda mais, muitos duvidaram do sucesso da união a ponto de ouvirem que teriam filhos "crioulos". Mas os filhos "crioulos" estão aí, com muito orgulho do pai e mãe que tem e orgulhosos de sua melanina. E viva ela!

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  4. Vivaaaaaaaaaaaaa!
    E Lucy comentou no blog!
    Ebaaaaaaaaaaaa!

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